Santuário do Caraça

À pergunta - o que é o Caraça? - poderíamos responder:
um conceito de vida, uma forma de existir, uma filosofia tanto mais real quanto mais poética.
{ Henriqueta Lisboa }


Revelo aqui um pouco da potência da vida exuberante que um lugar pode guardar. Sempre haverá o que experimentar, (re)conhecer e com o que se deleitar no Caraça, desde o nítido esplendor da flora e fauna até os meandros da história da construção e da vida do santuário. Nesse espaço virtual faço a minha tentativa de dar forma ao alumbramento dos dias que vivi por lá – e que permanecem vibrando em mim.


domingo, 28 de abril de 2013

Calvário Vivo

Há sim o calvário erigido que é instantâneo para todos os dias, e nele o sol seco se arrasta ácido e as pedras são adornos áridos, mortos. Os crucifixos imponentes nomeiam o percurso, ostentam o esforço de sustentar o céu e os olhares e o cansaço. Sempre acima dos homens, o martírio da cruz é guiá-los ao amortecimento de seus sentidos sem contudo permitir-lhes o esquecimento: cada cruz é a palavra desferida forjada na memória da carne. A cruz autoritária, entristecida. O calvário nomeado, verdugo dos homens ingênuos que gozam o padecer sob uma intenção alheia.

E há o Calvário, trilha dos fundos desbravada muito antes da idéia do calvário-maquete. No entanto a via é esguia, indomada, e o solo ecoa surdo como fina crosta compactada sobre um vasto vazio. Incrustado nas montanhas, o Calvário natural leva à Capela desativada, localizada longinquamente acima do mundo construído do Santuário – deste, a visão da Capela é irreal e sem contornos, uma pintura pálida. A Capela desativada, esmaecida e manchada como uma antiga janela que não se abre mas guarda ainda a beleza misteriosa daquilo que se inutilizou sem se estragar. Olhos fechados voltados para sempre aos homens – Capela onírica, estátua brotando da vegetação – flor estrangeira que se adaptou sem ser incomodada.

Tortuoso e úmido é o acesso perfumado pelas folhas secas maceradas à terra pastosa e a pedriscos finos. O emaranhado vegetal enrosca-se ao corpo liso de suor frio do peregrino; insetos ocultos crepitam, flores e madeiras exsudam resina adocicada mas as sombras são amargas e frescas. Vivas de musgo, as pedras acompanham a peregrinação, sendo por vezes o chão em que se firma o passo, o degrau improvisado, o apoio às mãos, o perigo escorregadio. Há trechos em que a crista estreita dos rochedos é a única passagem, existindo ao lado do corpo alerta apenas a queda iminente no espaço profundo forrado de copas de árvores. Eis pois o verdadeiro Calvário, aquele que desperta as fibras corpóreas e a atenção a cada passo vencido, e consome do homem o corpo intumescido pelo acúmulo de cruzes e impurezas. Não há desafio nem promessa, não há esperança: aquele que avança não mais pertence à medida humana - sua bagagem urbana desintegra-se em contato com a atmosfera do Calvário. Abandona-se o pensar: o peregrino é o moto-contínuo em si, energia que gera a si própria e de si se nutre.

Não há a expectativa do encontro: quem insiste na subida pelos fundos não precisa de remição. Imiscível, sublimado, indivisível é o que do homem chega à Capela: protoplasma.


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