E há o Calvário, trilha dos fundos desbravada muito antes da
idéia do calvário-maquete. No entanto a via é esguia, indomada, e o solo ecoa
surdo como fina crosta compactada sobre um vasto vazio. Incrustado nas
montanhas, o Calvário natural leva à Capela desativada, localizada
longinquamente acima do mundo construído do Santuário – deste, a visão da
Capela é irreal e sem contornos, uma pintura pálida. A Capela desativada,
esmaecida e manchada como uma antiga janela que não se abre mas guarda ainda a
beleza misteriosa daquilo que se inutilizou sem se estragar. Olhos fechados
voltados para sempre aos homens – Capela onírica, estátua brotando da vegetação
– flor estrangeira que se adaptou sem ser incomodada.
Tortuoso e úmido é o acesso perfumado pelas folhas secas
maceradas à terra pastosa e a pedriscos finos. O emaranhado vegetal enrosca-se
ao corpo liso de suor frio do peregrino; insetos ocultos crepitam, flores e
madeiras exsudam resina adocicada mas as sombras são amargas e frescas. Vivas
de musgo, as pedras acompanham a peregrinação, sendo por vezes o chão em que se
firma o passo, o degrau improvisado, o apoio às mãos, o perigo escorregadio. Há
trechos em que a crista estreita dos rochedos é a única passagem, existindo ao
lado do corpo alerta apenas a queda iminente no espaço profundo forrado de
copas de árvores. Eis pois o verdadeiro Calvário, aquele que desperta as fibras
corpóreas e a atenção a cada passo vencido, e consome do homem o corpo
intumescido pelo acúmulo de cruzes e impurezas. Não há desafio nem promessa,
não há esperança: aquele que avança não mais pertence à medida humana - sua
bagagem urbana desintegra-se em contato com a atmosfera do Calvário.
Abandona-se o pensar: o peregrino é o moto-contínuo em si, energia que gera a
si própria e de si se nutre.
Não há a expectativa do encontro: quem insiste na subida
pelos fundos não precisa de remição. Imiscível, sublimado, indivisível é o que
do homem chega à Capela: protoplasma.
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