Santuário do Caraça

À pergunta - o que é o Caraça? - poderíamos responder:
um conceito de vida, uma forma de existir, uma filosofia tanto mais real quanto mais poética.
{ Henriqueta Lisboa }


Revelo aqui um pouco da potência da vida exuberante que um lugar pode guardar. Sempre haverá o que experimentar, (re)conhecer e com o que se deleitar no Caraça, desde o nítido esplendor da flora e fauna até os meandros da história da construção e da vida do santuário. Nesse espaço virtual faço a minha tentativa de dar forma ao alumbramento dos dias que vivi por lá – e que permanecem vibrando em mim.


sábado, 27 de abril de 2013

Capela

Quando então de tanta impessoalidade não se sente mais a humanidade do corpo – surge à luz a Capela desativada. Não de frente: obliquamente chega-se a ela, a de olhar opaco e distante a perscrutar outras paisagens. Espanto, deslumbramento, alívio – nem mesmo alegria a ermida provoca. Ela não destoa da natureza e não agride os sentidos – mas causa um estranhamento o seu tamanho, revelador da intenção de quem a construiu: materialização para ser vista de longe, de baixo – para ser contemplada à distância. Seu corpo é robusto, o porte é altivo e modestamente indiferente. A cal das paredes está manchada de faixas escuras e pungentes. Hermeticamente inacessível é a sua presença ainda que o exterior esteja ao alcance das mãos. Espalha ao redor de si a coroa de silêncio composto pela passagem do ar – o ar passando é mais tangível, real e menos delicado do que a Capela. 

A luz, leve e fina, e o ar, saturado de verde morno, estão ligados à Capela por uma vida tênue – um fio invisível a perpassá-los, a vida que se manifesta de modos diferentes no mesmo grande organismo que são. 

Não é o olhar do homem que faz dela a Capela; nem o nome, tampouco sua arquitetura, sinal precário a apontar uma função (há muito abandonada) – mas sim essa vida que em tudo está infiltrada e que ali eclode numa perpétua ação palpável e imóvel: existência plena e atonal, independente do mundo humano. 

Gritos de aves irradiam-se dentro da Capela, a rouquidão áspera inunda o interior pressentido, rasgado pelo grito seco, sem vazar e se misturar ao lado de fora. Revestida de infinitos começos e fins, sua poeira e penumbra são o reino de anseios pulverizados movendo-se na viscosa suspensão do espaço inabitável. 

 A Capela fecha-se sobre si, velando-se. Sua existência acumulando-se em espiral. 

Capela concha modelando o molusco tempo. 



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