Quando então de tanta impessoalidade não se sente mais a humanidade do corpo – surge à luz a Capela desativada. Não de frente: obliquamente chega-se a ela, a de olhar opaco e distante a perscrutar outras paisagens. Espanto, deslumbramento, alívio – nem mesmo alegria a ermida provoca. Ela não destoa da natureza e não agride os sentidos – mas causa um estranhamento o seu tamanho, revelador da intenção de quem a construiu: materialização para ser vista de longe, de baixo – para ser contemplada à distância. Seu corpo é robusto, o porte é altivo e modestamente indiferente. A cal das paredes está manchada de faixas escuras e pungentes. Hermeticamente inacessível é a sua presença ainda que o exterior esteja ao alcance das mãos. Espalha ao redor de si a coroa de silêncio composto pela passagem do ar – o ar passando é mais tangível, real e menos delicado do que a Capela.
A luz, leve e fina, e o ar, saturado de verde morno, estão ligados à Capela por uma vida tênue – um fio invisível a perpassá-los, a vida que se manifesta de modos diferentes no mesmo grande organismo que são.
Não é o olhar do homem que faz dela a Capela; nem o nome, tampouco sua arquitetura, sinal precário a apontar uma função (há muito abandonada) – mas sim essa vida que em tudo está infiltrada e que ali eclode numa perpétua ação palpável e imóvel: existência plena e atonal, independente do mundo humano.
Gritos de aves irradiam-se dentro da Capela, a rouquidão áspera inunda o interior pressentido, rasgado pelo grito seco, sem vazar e se misturar ao lado de fora. Revestida de infinitos começos e fins, sua poeira e penumbra são o reino de anseios pulverizados movendo-se na viscosa suspensão do espaço inabitável.
A Capela fecha-se sobre si, velando-se. Sua existência acumulando-se em espiral.
Capela concha modelando o molusco tempo.
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